Dupla Delícia.

Dupla Delícia.

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Ela acreditava em milagres.




Era um final de tarde lindo, como quase sempre é.
Como sempre fez, Liz foi à praia conversar com Deus. 
Ela gostava daquele momento, daquele espetáculo do Sol, da luz dourada cobrindo o mar.
As águas do mar em constante devoção a Deus mexiam com o espírito de Liz. 
As águas subiam até onde conseguiam como se exultassem diante do Criador e, de repente, justamente por estarem diante de tamanha Majestade, as águas se prostravam. Assim, formaram-se as ondas do mar. Pelo menos, era assim que Liz enxergava.
Eu sei, parece um mundo particular, e era. No mundo dela, tudo tinha uma conexão com Deus, a quem ela chamava carinhosamente de Pai.
Liz tinha boa aparência, muitos não a entendiam. Achavam que ela poderia estar fazendo outras coisas, usando sua beleza. Coisas normais, ir à festas, conhecer pessoas... Mas ela sempre preferiu a companhia de seu Pai ou de pessoas que estivessem no convívio Dele.
E alguns, por não a entenderem, ficavam imaginando coisas e inventando histórias sobre ela.
Ela ria da imaginação alheia. Nunca foi tirar satisfação com ninguém. Liz sabia bem quem ela era.

E naquele final de tarde ela estava lá, sozinha, numa praia onde não tinha mais ninguém, sentada na areia, pés descalços, olhos fixos no horizonte. 
De repente, alguém veio do mar. Não, não era fantasma ou nada assim! Era apenas um cara que estava surfando.
A praia é grande, mas o cara quis ir bem onde ela estava. De longe, educadamente, já a cumprimentou. Ela só levantou os olhos e deu um meio sorriso, pra não dar muita abertura pra conversa.
Ele passou por ela. Ela respirou aliviada, pois ninguém iria "perturba-la" naquele momento.
Ilusão. Ele só foi pegar uma toalha, uma maçã (porque estava com fome) e sentou-se ao lado dela.

- O mar estava incrível hoje._ ele disse.
- É. _Liz respondeu o olhando, sendo um pouco mais receptiva.  

Ele continuou o papo, contando várias histórias, e ela o ouvia.
Com o tempo, ela foi se desarmando, ria de algumas coisas. Ele parecia boa pessoa, mas algo a incomodava, a alertava.

- Você chegou, sentou-se aqui, veio conversando... Não me disse seu nome.
- Ah, desculpe. Gael, muito prazer.
- Liz.

Apertaram a mão um do outro. Apesar de ter sido um simples aperto de mão, Liz sentiu todo seu corpo se movimentar por dentro. E ele também. Mas não falaram nada. 
Essas coisas estranhas que acontecem são ainda mais estranhas quando tentamos explicar. Não se explicaram, mas sentiram. 
[O que não cabe em nosso entendimento desperta "certa desconfiança" ou desconforto. Mas quem foi que disse que tudo cabe dentro da caixa premeditada? 
Sinceramente, descobrir e aceitar o que foge de nosso controle pode ser um desafio mas, muitas vezes, é um desafio recompensador.]
Enfim, apesar de toda estranheza de ambos, algo dentro deles foi conectado.

Ficaram lá até tarde da noite. Às vezes conversando com palavras, outras com o silêncio.
No outro dia, tudo normal. Como se nada tivesse acontecido, Gael seguiu a vida.
Ele não se atentava aos acasos, preferia seguir seu planejamento habitual, conhecer pessoas que seguissem seus roteiros, que preenchessem seus pré-requisitos muito bem pensados para que não houvesse "falhas". 
Como se relacionamentos fossem empresas, como se não houvesse a beleza da vulnerabilidade, das diferenças... 
Mas Liz o entendia, ela sabia que algo o assustava. E gente assustada não enxerga as coisas com nitidez, tudo parece tenebroso, qualquer sombra vira monstro e o desconhecido vira uma ameaça. 

Depois desse dia, eles se viram ou se falaram algumas vezes no decorrer de alguns anos, mas sempre com um hiato de tempo para garantir a distância emocional que supostamente traria segurança.
Em pouco tempo de conversa ela percebeu toda rede de segurança que ele criava para não sofrer. Na verdade, ele era sensível, embora não quisesse ser. Ele era doce, embora parecesse áspero vez ou outra. 
Vez ou outra ele a feria sem saber mas parecia de propósito. Parecia que a feria pra aniquilar qualquer resquício de sentimento. Era estranho. [ A "Estranheza" sempre estava entre eles]
Era estranho porque com todos ele era amável, mas com ela era 'limitado'.
Ela sempre tentava o enxergar pela lente do Amor (falo do Amor Divino). Tentava justificar as ações "feias" feitas gratuitamente. 
Nos últimos dias, ao mesmo tempo em que as coisas pareciam melhorar  entre eles, pioraram.
E enquanto todos a queriam por perto, ele se esquivava. 
Enquanto todos a admiravam, ele parecia querer colocá-la pra baixo. E Liz vivia num mundo muito bom para se submeter ao mundo que ele estava naquele momento. Era muito bem tratada e cuidada para, de repente, aceitar ser "descuidada".
Ela sabia que Gael era um homem bom. Foi a essência dele que a encantou. Foi o "não dito"... Ela sabia da conexão que acontecera anos atrás e ela sabia que isso tinha nascido de Deus, mas já estava esgotada. 
Liz acreditava que um dia ele perceberia as grosserias cometidas. Acreditava. Agora não mais.
Como aquele ditado "água mole em pedra dura, tanto bate até que fura"
Sim, viveram dias lindos, dias que pra ela pareciam a eternidade. Breves momentos mas tão cheios de ternura que....
Mas agora...a pedra foi furada e dói. Dentro dela dói.
Todo amor e admiração que ela tinha por ele congelaram. [Não, não desapareceram, mas congelaram]
Liz nunca teve esse olhar por alguém. Esse olhar de NADA. Agora, toda estranheza que ela sentia voltou-se contra ela mesma. E ela se estranhava.
O fogo pode descongelar isso? Pode. Mas de onde viria esse fogo?
Um milagre? Talvez. 
Um milagre iniciou essa história, e um milagre poderia conclui-la como deveria ser, como estava escrita bem antes de acontecer.


Ela acreditava em milagres pois eles eram constantes em sua vida.







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