Dupla Delícia.

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quinta-feira, 9 de abril de 2015

''Porque meu coração não é cemitério'', disse Sofia.





Muitos anos haviam se passado. Sofia falava daquilo tudo com certa naturalidade. Ao menos era com a naturalidade possível depois de tantos acontecimentos.
Ela nunca soube matar pessoas dentro de si e sempre achava estranho quem conseguia fazer isso.
Seria ela estranha ou o povo?
Era uma estranheza ruim? Por que as pessoas preferem "a morte" dentro do outro do que serem amadas apesar de tudo? O amor sem merecermos nos constrange tanto assim a ponto de o rejeitarmos como punição? Claro, o amor que falo não é obsessão ou algo doentio. Falo do amor raro, que muito ouvimos falar mas pouco vemos; do amor que admiramos mas hesitamos ter.

O presente é ótimo, é dádiva! Mas seu passado não foi menos bom.
Claro, decepções acontecem, tombos, machucados. Mas Sofia separava a dor de quem a causou e isso a fazia olhar pra trás com a pureza do inédito, como se ela não soubesse que dali viria mentiras.
Dentre os três que ela se apaixonou, UM ela amou. E esse foi o que mais a enganou, mais a feriu. Mas mesmo assim, Sofia o amava com amor inocente, de querer bem, de não querer viver em guerra...
"Perdão foi feito pra isso, pra ser usado"_ dizia ela. "Por isso o perdôo, me perdôo. Sei de minha pequenez, de minha fragilidade, assim como sei da dele".
Mesmo com as palavras que ele disse, que mais pareciam facas afiadas entrando em seu coração; mesmo com a indiferença e frieza que ele demonstrava, Sofia se negava a acreditar naquele monstro que ele havia se tornado. E como ela não acreditava, o monstro não existia. O que restava era sempre a memória cheia de boas recordações da pessoa doce que um dia esteve com ela.
Ele não era uma pessoa má. Não podia ser! Não cabia nele aquele tipo mau caráter.
Uns dizem que é porque Sofia se recusa a enxergar a verdade. Já ela acredita que a verdade não é aquela. A verdade foi o que ela conheceu e viveu.
Quanto ao moço...Bom, ela não o entendia, mas com o coração livre o amava. E ele não entendia aquele amor, às vezes se achava bom demais e com isso menosprezava-a; outras vezes, não se achava merecedor e ficava incomodado com a doçura que vinha dela.
Pobre rapaz, tinha tanta coisa boa dentro de si mas às vezes se perdia, e achava que o amor vinha por mérito. Ele ainda não entendia a dimensão de um amor real.
E assim Sofia vivia, com sonhos dentro dela, com pessoas vivas. Ela se recusava a transformar seu coração em cemitério, se negava a ter participação no crime de "matar" pessoas dentro de si, mesmo que essas a tivessem matado dentro delas. Sofia não se pautava nos outros pra agir.
"Meu coração pulsa, jorra amor, não cabe morte, só vida!"_dizia Sofia.
E por isso, o mundo lá fora podia estar cinza, as pessoas podiam estar frias (ou calorosas de forma seletiva), mas dentro de Sofia era quente e colorido.

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