Dupla Delícia.

Dupla Delícia.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Chega de dias pálidos!


Era um dia pálido.
Nuvens que antes brincavam de se esconder e exibiam o Céu azul, agora parecia que tinham dado as mãos, cobriam o Sol. E o cinza das construções da cidade se misturava com o do Céu e com o do coração de Juan.
Ele, que antes era Sol por dentro, agora era noite. Mas ainda havia estrelas prometendo um próximo dia e o lembrando de sua essência solar, quente, envolvente.


Mas hoje ele era guiado, inconscientemente, pelo medo. Medo que algo ou alguém atrapalhasse seus planos tão bem traçados para que não houvesse dor em sua jornada.
Mal sabia ele que a dor do crescimento é inevitável, e a maturidade não tem nada a ver com ignorar as batidas do coração.
Apesar de negar, no fundo, no fundo ele achava que ouvir o coração era coisa de adolescente. Achava que adulto determina o que quer sentir. Nem tanta racionalidade, Juan... Adultos que abandonam-se não são adultos, são apenas crianças grandes.
Abandonar-se é mais comum do que imaginamos, e as razões são inúmeras.

  • Medo: "e se não der certo? Ela mexe tanto comigo que tenho medo de sofrer"
  • Conveniência: "ahhh já conheço toda a família dele, conheço os defeitos, ....ter que passar por tudo de novo?! Não, não"_diz a Conveniência.
  • Ignorância: "preciso focar no trabalho, essa é a hora". Não que o trabalho seja ruim, claro que não. Mas o foco nele de forma muito absurda nos faz inverter os valores da vida sem percebermos.
  • Orgulho...sim, orgulho. Quantas vezes abandonamos o que nos faz feliz por puro orgulho, por não querer dar o braço a torcer, por não querermos voltar atrás?!


Como perceberam o foco aqui é o amor. Por que? Porque o mais importante vem primeiro, sempre!

Voltando a Juan...Ele tem um coração incrível, tão bom que não viu maldade quando o fizeram ser uma outra pessoa. Na verdade, nem percebeu. Nem percebeu que seu coração, apesar de continuar sendo incrível, estava sob uma capa de dureza. Nem notou que havia sobre ele tantas justificativas inventadas por outros que ele já não era o mesmo.
Quando alguém é convencido (por si ou por outros)de que ignorar sentimentos é o melhor, no final até parece fazer sentido e ser algo "normal".
Explico: quando ignoramos alguém (ou um sentimento) que nos sacode, no início é tão difícil, dói fazer aquilo contra a pessoa (e contra a gente mesmo). Depois, dia após dia, vamos ignorando e isso passa a ser uma prática. E quando vira prática passa a ser indiferente. E sem perceber matamos alguém (juntamente com o sentimento) dentro de nós. E, enganados, achamos que ignorar emoções funciona, já que não sentimos mais a dor inicial (ao ignorarmos).
Tolice! Agora, no lugar do amor, da pessoa amada que foi ignorada, há uma morte dentro de nós. E morte não é boa coisa. As emoções ficam ali anestesiadas. Você não sente mais dor, mas você também não sente mais nada em sua plenitude.
Cuidado com a indiferença. O desprezo por outra pessoa quase sempre vem junto com o desprezo e  com a falta de respeito com o que VOCÊ sente.

Enfim, por tudo isso dentro de Juan o Céu estava cinza.
Por isso, as nuvens de mãos dadas! Elas estavam fazendo uma oração para que houvesse uma tempestade que o despertasse e o Sol de dentro dele voltasse a refletir no céu.
É porque há muito tempo ele era todo sol, calor, doçura...E todos os dias pedia pra Deus pintar um no céu para a moça dos seus sonhos.
-Viu o Solzão que mandei pintar pra você? _disse pra ela, pois sabia que ela também era solar e apreciadora da natureza.
-Vi sim, é lindo, baby....Lindo! E lindo você me dar isso de presente! _se derretia ela.
-Quem merece, merece tudo.
-Mais tarde mando a Lua pra você_ correspondia a moça.

Eles moravam longe um do outro, fisicamente falando. Mas eram de um universo tão semelhante que a distância parecia não os separar. Parecia.
A vontade de tê-la por perto foi incomodando-o, e ele não sabia o que fazer.
Não fez. E desde então o tempo fechou dentro dele. Continua sendo um homem bom, mas perdeu a doçura. Continua fazendo surpresas (para outra), mas perdeu o coração. Continua vivendo, mas perdeu-se.
Mas até hoje, ao olhar pra Lua enxergava além. Quando alguém mostrou a Lua pra ele, em voz baixa  disse : "a Lua...ela tem esse nome pra você. Pra mim é outro nome, mas não a chamo mais. Agora só olho de longe"_disse ele denunciando seu íntimo.


Vez ou outra ele se pegava lendo uma escritora, meio sem querer... Ele até gostava das obras dela, mas ao mesmo tempo, ficava irritado, parecia pessoal demais. Mas mesmo assim lia.
Conseguiu um contato com ela e foi tirar satisfações:
-Por que você faz isso?
-O quê?
-Escreve pra mim.
-Não, eu não escrevo...
-Escreve sobre mim!
-Desculpe-me, senhor, mas também não. Escrevo, sim, sobre a matéria-prima das pessoas, talvez por isso você SE encontre nos escritos. Ei! Mas isso é ótimo! _disse Clara, a escritora, toda otimista.
-Isso o quê?
-Você se encontrar, ue!
-Não, não é. Você me deixa confuso, e fica parecendo que eu não sei o que eu sinto. E eu...eu sempre sei o que sinto!_disse ele todo cheio de certezas...
-Fica parecendo? Parecendo pra quem? Com quem você se preocupa se a conversa é só entre você e as letras que lê?! Acho que está equivocado em algum momento. Talvez sobre você mesmo... Letras não julgam, livros apenas nos refletem. Apenas apontam o caminho. E se meus textos te deixam confuso, eu desconfio que isso seja bom! Só tolos são cheios de certezas... A sabedoria questiona...
-Me deixar confuso é bom? Pra quem? É incrível, basta eu não te ler que fico com a alma sossegada..._disse querendo ofendê-la. Em vão, Clara jamais se ofendia com essas coisas. Pelo contrário, ela se enchia de amor e compaixão pela pessoa. Loucura? Talvez?! Ou talvez ela apenas enxergasse com mais nitidez o que o mundo tentava desfocar (a verdade).
-Você quis dizer que " é só você SE ler", ne, meu caro?! A luz ofusca mesmo, não se assuste. No início parece que a gente não enxerga direito, parece que está bagunçando tudo, mas não está. Está apenas mostrando a bagunça que já existia mas você não via. A luz apenas mostra as máscaras que usamos há tanto tempo que quase se confunde com nosso rosto, quase se confundem com nossa essência. Tenha calma comigo e com você. Isso é apenas um DESPERTAR.
-Acho que me expressei mal. Não fico confuso, me sinto confrontado. Mas ao mesmo tempo...quando estou com você me dá uma paz, me faz bem... Vamos nos ver de novo?
-Desculpe, agora quem não está entendendo sou eu. A gente se conhece?
-Sim, de muitos anos atrás. Vivíamos no mesmo mundo, depois eu acabei mudando, sem perceber. [...] Eu sei, eu sou o cara por quem você escreve.
-Minhas histórias são ficções, amigo, e falam do coração de forma geral. Quem é você?
-Bebê, eu sou o que habita em cada frase, cada palavra, cada letra...

Esse vocativo gritou dentro dela. Agora, sim, Clara sabia quem era que estava falando com ela pela internet...mas o corrigiu rapidamente.
-Não, você não habita em minhas letras. Você habita em mim, em cada batida do meu coração, em cada boa música que ouço, em cada flor que vejo, em cada aparição do Sol (seja no amanhecer, seja no entardecer). Você quer me encontrar?!
-Não, eu quero te ver. Te encontrar eu já encontrei desde o primeiro dia.
-Até aceito, mas desde que eu te veja pelo resto dos meus dias.


Nesse momento começou a chover dentro de Juan, veio a tempestade. As nuvens foram se dissipando. Soltaram as mãos. Parecia que o Céu tinha ouvido a oração delas.
Era uma tempestade de sentimentos que pareciam sem rumo. Mas aos poucos a chuva diminuiu, ele parou de chorar. Agora já tinha colocado pra fora tudo que tinha guardado...Estava mais leve. O Sol dentro dele ressurgiu e agora sua Lua, aquela que tinha outro nome, poderia voltar a ser chamada.












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