Dupla Delícia.

Dupla Delícia.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

O acordar.




Quantas vezes Nina tentou ganhar a admiração dele! Quantas...
Mas ele vivia um duelo por dentro. Ao mesmo tempo que tinha coração grande e visão ampla, por não entender algumas coisas limitava, restringia. E pra ele, ser alguém na vida estava muito relacionado a estabilidade financeira.
Se por um lado ele era artista também (apesar de lutar contra isso algumas vezes), por outro ele admirava quem morresse de tanto estudar, quem tivesse uma vida "estável" aos olhos dele e isso implicava ter um trabalho comum.
Mas comum Nina não conseguia ser, por mais que ela tentasse (e ela tentou)...seu jeito incomum era natural, era inato... Ela não era comum nem no básico nem nos detalhes. (Apesar de se enxergar como normal, as pessoas não a viam assim e sempre fizeram questão de deixar bem claro o quanto ela era rara ...). Tudo que ela fazia tinha amor, verdade e arte! E era a verdade que assustava as pessoas... Ela via o invisível, via grandeza em cada pequenez, conversava com plantas, animais, consigo mesma (e isso era a parte mais incrível: ela se ouvia, não fugia de si)....
Mal sabia que de algum modo ele a admirava, apenas não tinha coragem para um envolvimento tão natural, tão tocante, com um encaixe tão perfeito! Ele era 'evitante' (como a psicologia define na Teoria do Apego): a amava, mas por medo do próximo passo a evitou.
Já tinha tanto tempo! Hoje, acredito, que esteja vencendo isso, foi amadurecendo, temendo menos. Ele...Juan.
Claro , ele se envolvia...com quem ele podia ter o controle da situação ( não falo de poder no relacionamento, e sim de autocontrole).
Ela sonhava com o dia em que ele despertaria por dentro e abandonaria a vaidade e orgulho. Nesse dia, ela sabia, ele viria pra perto. Mas também sabia que pra isso era preciso tempo e transformação. Vaidade e orgulho estão muito presentes na sociedade, embora poucos percebam-se contaminados. Nina não caminhava nas regras desse mundo, fazia de tudo para fugir do paradigma ditado e doentio.
Volta e meia ela SE REPARAVA, observava-se e se percebesse que o orgulho estava ali dava logo um jeito de exterminá-lo.
O mundo dela era outro. Um mundo onde temos fraquezas, reconhecemos isso e não nos sentimos mal por isso. Pelo contrário, o peso da perfeição só cabe em Deus (que, de fato, é Deus no mundo de Nina).
Tanto tempo. Tanta coisa dita pra ferir, tanto gesto de amor, tantas contradições. Tanta coisa aconteceu.
"E aí?"_perguntavam a Nina.
Ela respondia: -tanto amor!!! Quem nunca errou ? Quem nunca teve medo ? Quem nunca fez sofrer alguém por pura ignorância ?! Quem sou eu pra acusá-lo ou puni-lo?! Deus me perdoa por meus vários erros. É o que posso fazer: perdoá-lo e amá-lo ainda mais por reconhecer e ter a hombridade de voltar atrás .

Ela sabia que, quando eles se misturaram, ele tinha sido sincero ( sem perceber, ele deixava escapar 'subtextos'...deixava escapar sua alma, e Nina era boa em ler esse tipo de coisa. Deus a fez assim).
Ela sabe que até hoje, vez ou outra, ele pensa nela. Como sabe?! Ela sabe. Encontro de coração proporciona isso na vida dos dois: saber o que se passa com o outro sem que nem mesmo o outro assuma pra si.
Relacionar com pessoas seguras às vezes é complicado pra quem é apegado à relações cheias de altos e baixos, dramas...E Nina era segura.
Muita gente associa essa vulnerabilidade ao amor. Mas o amor genuíno gera paz, independente da circunstância absurda que se viva. Enquanto que o "gostar" pode, sim, te deixar feliz, as circunstâncias podem ser favoráveis, mas sempre falta algo, inclusive PAZ (aquela certeza de que é ele/ela ).
Como a identificação era grande ( ela era a mulher dos sonhos dele) e a proximidade intensa seria inevitável, ele logo deu um jeito de afastá-la, mesmo sofrendo e chorando. Afinal ele era um 'evitante', e evitantes por mais que queiram alguém tentam manter um limite de proximidade, intimidade.  E Nina não o julgava por isso, o aceitava.
E apesar de tudo, tempo, circunstâncias estranhas, coisas ditas sem sentir (simplesmente para ferir e afastar), distância...ambos sentiam paz.
Inesperadamente, mas sempre esperado, ele a procurou.

-Sinto muito por não ter te abraçado forte. Eu devia ter te abraçado tão forte que nem mesmo eu, com meu medo de um amor assim, conseguiria te afastar de mim. Você transformava meu mundo num mundo maior, isso era ótimo mas me assustava. [...]Te conhecer me levou numa posição sonhada por muitos: ter o amor da vida, e eu me senti tão sortudo que não sabia o que fazer e te devolvi ao 'destino'....como se pudesse devolver sonhos...ainda mais realizados. Sonho sempre volta, seja na madrugada, dormindo; seja acordado. E quando volta a gente precisa acordar para vivê-lo. É isso que vim fazer, vim vivê-lo. Vim viver você. [...] Me perdoe por demorar tanto para despertar...

-Você despertou, meu amor. Isso basta!

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