Dupla Delícia.

Dupla Delícia.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Inspiração. Só isso.


Alice já era mulher, apesar de suas crenças puras de menina.
De um tempo pra cá ela tomou coragem (ou perdeu?!) e decidiu se relacionar com um cara bom.
Você pode estar se perguntando: "onde a coragem entra nisso?" ou "onde a coragem saiu nisso?"
É que ela decidiu se relacionar como a maioria que ela tanto criticou, decidiu se relacionar porque era bom estar com ele, porque ele estava disposto e mais um monte de "porquês" racionais (entenda: sem coração).
É, porque o coração também é lógico, as pessoas é que não enxergam isso. Enfim...
Mas acho que no fundo, no fundo, ela sabia que relacionamento assim não ia muito longe. Não com ela, não para ela!
O cara vivia em outro mundo. E aqui não falo de realidades diferentes, porque isso pra ela não fazia a mínima diferença. Falo do mundo de dentro.
Eles conversavam, riam, mas Alice não conseguia ser plena. O silêncio com ele pesava um pouco, porque ele não conseguia a ler...
-A gente precisa avançar, dar outro passo no nosso relacionamento _ele dizia se referindo a casamento.
E isso assombrava Alice. Logo ela, que sempre sonhou em ter sua própria família. Mas ela não sentia PAZ. Sabe aquela certeza no íntimo mesmo que tudo pareça contrário, mesmo que tenha medo....? Sabe aquela paz?! Desaparecia....
-Calma, meu bem, a gente precisa se conhecer mais.
-Mais?!
-Ué, 'vai que eu sou' maluca?! O que você sabe sobre mim?
-O que eu sei me basta.
Ela ria por não saber o que falar.
Sim, ele poderia trazer um certo equilíbrio pra ela. Era um homem de negócios, mais lógico, mais concreto.
Mas não era desse equilíbrio que ela precisava. Esse outro lado iria desequilibrá-la, iria matá-la aos poucos. Ela já viveu isso. O que traria equilíbrio para a asa dela não seriam pernas para firmá-la no chão, seria outra asa que a faria voar, planar e pousar tranquilamente em solo firme.

Um dia Alice estava caminhando no parque, como de costume.
Sentou-se no banco e minutos depois, sentou um senhor de uns 70 anos, que puxou papo com ela.
-Está sozinha, minha jovem, num dia tão bonito?
-Ah, pois é, resolvi vir pra cá pensar um pouco. A natureza me ajuda a perceber as coisas...porque tudo nela acontece de forma natural, não há receio, medos, inseguranças, não há motivos inventados...ela simplesmente floresce...
-Bela forma de pensar, aliás, rara pra uma mulher tão nova.
-É, é que cresci pra dentro. E por dentro, quanto mais a gente cresce mais criança a gente fica. No bom sentido. A gente acredita mais, tem mais pureza no olhar....simplifica.
-Interessante isso. Sou um velho grande por dentro então também... Pois mesmo que o mundo esteja estranho, mesmo que as pessoas estejam pensando no que é mais conveniente...cada dia aprendo que tenho que pensar no que gera vida, no que me ressuscita por dentro.
-Sua esposa é uma mulher de sorte!
-Somos. Ela e eu. Aprendi esse "olhar da vida" com ela, ela não me deixa perder isso. Já temos 40 anos de casados e eu ainda a olho e aprendo com ela...Ela me inspira. Aliás, estou a esperando, ela está caminhando um pouco. Você se parece com ela quando era jovem, vocês têm o mesmo olhar leve sobre o mundo.
Alice riu e ficou com os olhos marejados. Era isso que ela sonhava!
-Eu quero isso pra mim. Eu acredito nisso! Acredito nesse amor!
-Mas, você não vive isso com seu noivo? (perguntou ele direcionando o olhar para a mão direita dela, onde havia uma aliança).
Ela mordia os cantos da boca, engolia seco, respirava fundo tentando conter suas emoções.
-Como o senhor sabia que era ela?
-Ela me inspirava, me INSPIRA. Eu olho pra ela e dentro de mim inunda. E eu tenho vontade de amá-la ainda mais, de fazer carinhos, surpresas...Não porque eu sei que mulheres gostam disso e isso faz ela feliz. Não! É porque é inevitável...
Alice, de cabeça baixa olhando para suas mãos que mexiam sem parar colocando e retirando a aliança, cotovelos apoiados nos joelhos, olhou para aquele senhor e chorou.
Ela tinha facilidade de reconhecer seus sentimentos, era audaciosa em desnudar sua alma, nunca pretendia mostrar algo que não fosse verdade.
-Minha filha, seu coração não está com esse homem, não é?!
-Não, não está. Mas o homem com quem meu coração está não ...
-Então ele é um tolo. Você é uma raridade!!! Poucos sabem reconhecer o valor de uma joia, ou reconhecem, mas não se acham aptos para tê-la, acham que custará caro. Mal sabem que jóias raras não estão à venda, são presentes.

Um comentário:

  1. É, é que cresci pra dentro. E por dentro, quanto mais a gente cresce mais criança a gente fica. No bom sentido. A gente acredita mais, tem mais pureza no olhar....simplifica. Já ouvi algo semelhante do Seu irmão mais velho !!!

    ResponderExcluir