Dupla Delícia.

Dupla Delícia.

sábado, 22 de setembro de 2012

Vôo sem asas.


Zé era menino 'bão', desses criados no sertão.
Menino de interior, desses que tem valor.
Quando criança enfrentava bicho, animal feroz, noite escura...Era menino valente!
Zé sempre foi criança simples, mas não nas ideias e sim nos ideais. Era simples no coração, mesmo tendo o mundo na mão.

Foi crescendo e aquela cidadezinha se tornou pequena demais para suas ambições.
Com uma mochila nas costas e coragem no peito, ele viajou pelo mundo.
Tanta coisa pra conhecer! Um país diferente. Retornou. Depois uma outra cidade. Se aperfeiçoou, fez faculdade...venceu outro tipo de bicho, outros "animais ferozes", outras noites escuras (dessa vez menos estrelada, porque na cidade grande é assim, não se vê muito as estrelas. Às vezes pela poluição, pela falta de visão ou por descuido mesmo). 
Alguns desses "animais da cidade" o feriram. Essa é a selva de pedra.
DE REPENTE, ele esbarrou no Amor. Se assustou (DE REPENTE, é uma palavra que assusta a Razão, o programado...). E aquela coragem que ele tinha levado junto com a mochila, quando saiu de casa, sumiu.
Ele, que estava acostumado a FAZER surpresas, a estar no controle, foi surpreendido. Como diria Drummond: "E agora, José?".
Zé estava acostumado a enfrentar bicho no mato, desafio na cidade, concorrência no trabalho, mas AMOR???? Amor é arriscado demais pra quem está acostumado a vencer coisas palpáveis, pra quem já está todo programado. Sem perceber, a essência simples de Zé, aquele do interior, havia se perdido.
O Amor lhe 'obrigaria' a inverter valores (ou voltar aos seus valores que hoje só estavam em sua cabeça, não mais na vivência). O Amor lhe obrigaria a mudar um pouco o foco, adaptar programações...e Zé, apesar de ser menino bão, da disciplina exagerada ele não sabia abrir mão.
Com o Amor ele teria que aprender a viver sem ser seu próprio deus, sem chão, sem controle...porque o amor é assim mesmo, é um convite pra voar.
Ele estava entre a cruz e a espada. E ao invés de ir pra cruz e abrir mão de seu "domínio" sobre os dias, ele pegou a espada. 
Mas calma lá! Zé não teve coragem de matar o Amor. Lhe restava ainda aquela fé, doçura e esperança do "pequeno Zé do interior".
O Amor não entendia aquela reação. O menino tinha espaço no coração, tinha todo o necessário para recebê-lo...Todo mundo sonhava com o amor e Zé tinha o encontrado mas não sabia o que fazer.
Não sabia mesmo, porque o Amor não dá pra ser entendido com a razão, deve apenas ser aceito e vivido.
Mas Zé, em sua ignorância, feriu o amor e o abandonou. Foi procurar outro alguém que o fizesse se sentir bem também, mas não extasiado, sentir bem mas com os pés no chão.
O tempo passava e o Amor continuava ali no cantinho, escondido.
Esse amor todo vinha de Ana que também não entendia aquele sentimento todo dentro dela, mas aceitava e se sentia agraciada por ter algo tão incrível dentro dela.

Ana era menina doce, dessas feito algodão-doce colorido (lúdica). Apesar de ter sido criada na cidade grande e ter ganhado o mundo, pra ela o jardim de sua casa é que era o mundo inteiro. Porque era nele que ela tinha as flores, as árvores e os passarinhos.Tudo debaixo dos olhos do Céu, do Sol, das nuvens...da Lua. E essas coisas simples encontravam nela uma profundidade em viver e liberdade em ser. Por ter esse coração, essa simplicidade, essa lucidez absurda de que a beleza está nos detalhes é que o Amor invadiu Ana. É por tudo isso, e mais alguma outra coisa que não se sabe, Ana ainda amava Zé.

Muito tempo depois, quando o sentimento de Ana já tinha adormecido por não ter mais forças, o sentimento de Zé não aguentou mais e despertou. Depois de uma longa e dolorida ausência (ausência vã), Zé apareceu.
Simplesmente apareceu naquele mesmo lugar onde o Amor havia lhe esbarrado. Debaixo daquela mesma árvore.
Ana estava sentada no banquinho quando seu coração disparou. Ela levantou os olhos e avistou Zé lá na frente. E como se nada tivesse acontecido, como se não houvesse tantos dias os separando,... tomada de alegria Ana correu ao seu encontro. E antes que Zé dissesse qualquer coisa, ela pulou no colo dele e o abraçou com braços, pernas e coração. Embora eles nunca tivessem se declarado, ambos sabiam da existência do amor. Era inegável.
Ele a beijou, confessando assim que havia aceitado o amor. Ana o aceitou de volta mesmo hesitando, porque ela sabia que o Amor é um convite à loucura, um convite pra voar sem asas!

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