Dupla Delícia.

Dupla Delícia.

domingo, 8 de julho de 2012

Tão Clara!


Há algum tempo o inverno havia chegado. Dias escuros. Noites densas.
Mas ainda assim Clara resolveu dar uma volta pelas ruas desertas (no frio as pessoas se escondem). O vento cortava de tão gelado, mas Clara queria aprender a viver na frieza. Ela precisava aprender a caminhar mesmo nos dias doídos.
Não, não era promessa nem martírio. Era apenas uma urgência de sobrevivência.
Sua casa estava cheia de gente, mas ela estava cansada. Cansada de ser exemplo (ela queria o direito de errar), cansada de ser educada (ela queria o direito de gritar!), cansada de seus próprios erros e defeitos, cansada do ciúmes dos que a rodeavam (ela não suportava o peso de ser amada daquele tanto! Sim, era bom, mas ela nunca soube lidar com ciúmes, principalmente de familiares, lidar com cobrança é desgastante...e ela, ela era rio que corria, desaguava, fluía...e ciúmes a prendia, sufocava, irritava! Só admitia ciúmes do amado, e olhe lá!).
Ser a alegria e força de muita gente estava deixando-a pesada. E ela era rio, mas também era vento leve, e vento quando fica  pesado vira tempestade. E tempestade ela não sabia ser.
Por tudo isso, e mais umas coisas que ela não contava, Clara andava sem rumo pelas ruas naquele inverno que já durava muito tempo.
Sentou-se no meio-fio, pernas juntas, queixo sobre os joelhos. Olhava cada detalhe que estava ali, lembrava de cada detalhe que estava lá...lá na memória do coração. E quando ela lembrava, sua memória trazia o Sol, aquecia e Clara ria sozinha. Nesse memória que a esquentava, morava Pedro (feito pedra!). Pedro sempre soube fazê-la rir ainda mais que o normal, e agora ele só habitava em suas lembranças, em cada olhar de Clara. Eu disse SÓ?
Mas até disso Clara estava cansada. Das lembranças. Por isso permanecia exposta à toda aquela frieza, exposta ao vento congelante...Quem sabe não congelaria e destruiria esse lugar surreal que ela havia criado na memória?!
Num desses dias em que ela estava caminhando e girando com os braços abertos livremente no meio da rua, alguém a observava. Nos dias de frio onde todos desaparecem alguém a notava e ela nem percebeu. E cada giro que ela dava  a deixava mais tonta porém mais lúcida para as coisas essenciais. O mundo girava e ela conseguia ver tudo passando na sua frente. Pessoas queridas, viagens, momentos, pessoas não queridas, ...e as coisas que não tinham raiz despencavam pouco a pouco. E seus rodopios ficavam mais leves, mais musicais, mais sensoriais.
-Ops, perdão!_ ela esbarrou em alguém. Também, né, já estava tonta!
-Não foi nada. Eu que peço perdão por interromper esse momento raro de se ver no mundo, essa liberdade e coragem.
Clara deu um sorriso de alívio, pois tinha esbarrado em alguém que não a julgou, pelo contrário, leu-a. Baixou os olhos meio sem graça e o olhou novamente. Ele ainda a olhava. Ela que sempre foi a observadora, agora estava sendo observada. Mas sem preconceitos, apenas observada.



[continua...]

4 comentários:

  1. conto lindo, adorei!

    "Clara deu um sorriso de alívio, pois tinha esbarrado em alguém que não a julgou, pelo contrário, leu-a. Baixou os olhos meio sem graça e o olhou novamente. Ele ainda a olhava. Ela que sempre foi a observadora, agora estava sendo observada. Mas sem preconceitos, apenas observada."

    queria um encontro assim!
    abraço.

    ResponderExcluir
  2. Uau!! Como vc pode fazer isso? Como eu vou saber o final da história?
    Parabéns moça que essa mente continue sempre funcionando nessa intensidade!
    Deus abençoe você....

    ResponderExcluir