Dupla Delícia.

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quarta-feira, 11 de julho de 2012

Tão Clara! ( parte final)


O inverno já durava mais que uma estação, e Clara continuava com sua mania de enfrentar o frio, a falta de flores, a ausência de calor....tudo sozinha, até que aprendesse a lidar com aquilo tudo.
E o cara que havia esbarrado nela ainda a observava curioso.
Como já era parte da rotina de Clara, no entardecer ela foi andar pelas ruas. Dessa vez levou um caderno e um lápis. "Já são companhias suficientes"_ela dizia, mas sabia que não eram. Suficientes não!
Achou um lugar que parecia um pouco mais deserto, e ao mesmo tempo a protegia um pouco do vento gelado. Parecia um galpão abandonado.
E como terapia, começou a escrever sobre Pedro (aquele feito pedra!). E ela começou a entender que pra ele foi só uma brincadeira, ela que havia interpretado errado, levado a sério demais. Ela entendeu que na verdade, ela não entendeu nada do que viveu com Pedro. As coisas começaram a clarear, a neblina começou a se dissipar. "Gente, era uma coisa tão cotidiana pra ele e eu dei tanta importância! Como pude??? Foi uma coisa tão rápida e dei uma dimensão de eternidade...tsc tsc tsc"_ela falava sozinha, concluindo seus pensamentos. E cada descoberta era um tijolo a menos no mundo irreal que ela havia criado, cada conclusão dolorida deixava o personagem principal de suas historinhas cada vez menos palpável, mais transparente...quase um fantasma. "E fantasmas não são bem vindos, obrigada!".
Ela estava concentrada, de cabeça baixa escrevendo e nem percebeu que o cara que a flagrou rodopiando estava sentado ao seu lado.
-Moça, eu...
Clara olhou assustada pois não esperava ninguém. E ele continuou: "-Eu estava observando-a há alguns dias, dias que mais parecem décadas pois já considero-a familiar...
-Você, me observando??? Ou você é um bom observador ou eu estava distraída demais, pois não percebi.
-É, acho que as duas coisas. Mas no frio a distração é normal, a gente se concentra para se aquecer, para esquecer, pra permanecer...e não sobra foco, às vezes.
-Hum....parece uma boa teoria. Quem é o dono da teoria?
-Pois é, esqueci de me apresentar! Meu nome é Bento. E....qual é o nome da inspiração de minha teoria?
-Clara! Clara de corpo, alma e nome.
Eles riram, conversaram como se fossem amigos há anos. E Bento aquecia Clara. Não de corpo, mas de alma. Ele conseguiu trazer o verão pra dentro dela. Faltava pouco para que o verão chegasse como estação também. Porque a vida é assim, a gente conduz as estações.
E em poucos dias eles SE precisavam, não por necessidade, mas porque gostavam de estar juntos. Uma necessidade disfarçada de querer. E eles queriam. Queriam se descobrir, se "des- cobrir"... Mas Clara, que já havia levado ZERO na "interpretação de texto" na última prova temia acreditar em qualquer vírgula que fosse. E aprendeu com Pedro a levar tudo na brincadeira. E Bento agora teria que ensiná-la, reeducá-la.
Cada promessa dele, ela ria. Cada declaração, ela se calava. Não tinha o que dizer. Ela não sabia o que pensar.
-Clara, tenho que ir, mas volto em poucos dias.
-Como assim?
-Eu moro na Capital Federal.
-Que ironia! Então não....você não volta. (era a mesma cidade de Pedro que se foi...)
-Lógico que volto! Estou te dizendo!
-Dizendo?! Desculpe mas...dizer é tão vago. Não quero que fique chateado, é que não consigo mais acreditar assim tão facilmente. Homens gostam de brincar, de tirar o melhor do momento com a justificativa de VIVER...O problema é quando o momento envolve pessoas. Comigo vai ser complicado.
-Eu descomplico.
-O buraco é mais embaixo, Bento.
-Eu me arrasto se for preciso.
-É, tem que ter disposição.
-Eu tenho. Será um desafio.
-Ok. Desafio aceito.
E mesmo com toda essa conversa direta, aberta, Clara ainda temia.
-Mas você mora lá...
-Não interfere em nada, Clara! Faz é aumentar minha vontade de estar com você. E daqui uns dias te levo comigo.
Clara riu. O inverno passou. Já era primavera. Não só Bento, como o Céu, a terra também lhe davam flores. Toda neblina foi embora e Clara viu CLARAMENTE que o conhecido ditado é verdadeiro: "quem quer arruma um jeito, quem não quer arruma uma desculpa."




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