Dupla Delícia.

Dupla Delícia.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Como NÃO tinha que ser.



Eu estava lá tranquila no meu canto quando uma colega disse: 'todo dia ele fala de você, diz que fala com você e você não responde!'. Mas fala onde?, perguntei. Fala com todo outdoor que tem foto sua na cidade. Ah tá. Diga que respondo sim, ele que não escuta.
(até então eu não sabia quem era você!).
Outro dia troquei meia dúzia de palavras e risadas com você, através da colega. 'É ele!', disse. Oi?!, perguntei pra meu narrador. Pois é, acho que todo mundo que gosta de histórias (seja a própria ou inventadas) convive com um narrador dentro da cabeça. Acho que deixa as coisas mais interessantes, às vezes, mais engraçadas. Tudo bem que tem hora que passa do limite e começa a "viajar" demais.
Mas então...depois dessa breve troca de palavras, ponto. Um ano se passou, vi seu nome, tentei lembrar de onde conhecia (dessa vez o narrador não ajudou. Nem UMA palavra). Lembrei! O cara que meu narrador falou há um ano atrás.
A meia dúzia de palavras semeada virou contos e quase um livro de romance.
Finalmente, estávamos na mesma cidade na mesma hora. Marcamos um encontro. "Você sabe que é ele." Oi?! Mais uma vez indaguei ao narrador, mas quando ele tem que falar, ele não fala (ter um narrador-homem tem suas vantagens e desvantagens. Se fosse mulher estaria falando sem pensar. Já que é homem...pensa mas não fala).
Ao chegar no bar, de longe te avistei. Meu Deus, é melhor do que eu imaginava! Essa boca que eu queria entrar, cabelo gostoso, aquele jeito meio 'nem aí' mas que estava completamente ali. Seus olhos me tiraram o fôlego, o abraço me deu tesão.
Eu estava nervosa, ansiosa, sei lá...mas sorria e fingia calma (acho que sou boa nisso!). Quando nos abraçamos, eu disse pra meu narrador "é ele!". Fiquei com medo de ter dito isso em voz alta, mas acho que não (tomara!).
Estava tudo bem até que você pegou na minha mão sobre a mesa. Eu não sei o porquê, mas se pegam na minha mão fico desconcertada. Eu falo pra meus amigos "pegue na minha bunda mas não pegue na minha mão!". Acho que pegar na mão é íntimo demais (ok, e pegar na bunda não?!Hã?!)
Enfim, você estava nervoso também, eu sei. Embora tentasse disfarçar. Mas a mulher sabe quando o sentimento do cara ultrapassa a razão, o sentimento dele nos toca.
Depois que pegou na minha mão e eu deixei, não tinha mais jeito. Veio o beijo e junto com o beijo veio todo o seu mundo se misturando ao meu, e eu já não ouvia os barulhos do bar, não ouvia o trânsito, não ouvia nada. Nem pensar eu conseguia. Seu amigo nos chamou pro mundo. Achei engraçadinho eles ficarem enciumados, sinal de que você é amado, e se você é amado isso me deixa feliz.
Eu não esperava isso. Isso que senti, essas borboletas no estômago, essa confusão na cabeça. E meu narrador tentava explicar (ele tem uma mania absurda de ser racional), mas não conseguia finalizar, concluir a explicação. Era surpresa atrás de surpresa. Uma flor colhida na rua. Um brinde na praça. Um filme no carro. Uma viagem, e uma parada antes de chegar no destino pra...conhecer o brilhante casal que fez a coisa mais linda desse mundo: VOCÊ.
Eu confesso que eu estava morrendo de medo. Não sei, eu estava. Medo de acordar, medo de ser mentira (porque estava BOM demais pra ser mentira). E quando eu fico mais tensa, meu narrador fala mais, vai contando cada detalhe como se eu não estivesse vendo! E me dizia que você também tinha medo, narrou você olhando tudo em volta pra ver quem estava me olhando.
E a gente se amou com vontade e medo de que tudo acabasse. Mas a gente se amou e o mundo testemunhou. Eu sei que quando estávamos na piscina, alguns olhavam admirados, outros com inveja. A viagem acabou. Eu cheguei em casa mas não cheguei. Não me achava. Acho que eu tinha ido junto com você.
Os dias passaram e meu narrador ganhou um colaborador: VOCÊ. E você me narrava manhãs, tardes e noites. As noites eram sempre mais doídas, pois era o momento em que as estrelas cantavam em coro por seu nome, mas não adiantava, perto você não estava.
Mas estava bom, pra mim estava bom. Só do Céu soletrar seu nome me fazia feliz. E no final de semana a gente retribuiria o carinho celestial.
"Outra cidade! Você sabe o quanto isso é complicado?", dizia meu narrador. Como vocês sabem, meu narrador é homem e homem complica o sentimento e simplifica a razão. Tudo meio desnorteado.
Aquele dia eu tremia, você chorava, o Céu questionava e meu narrador descrevia suas lágrimas, sua mão me acariciando, seu adeus estúpido e forçado. "Deixa eu te carregar até o carro?", você me disse. "Ele não quer lutar pelo amor, mas quer carregá-lo em seus braços?", me disse o narrador.
Fomos embora de mãos dadas, como sempre será.
Chorar virou minha mania por alguns dias. Lembrar é rotina.
As estrelas não cantaram mais, elas apenas dançavam pra me mostrar que o show tem que continuar.
Depois de muito muito tempo, eu te vi. Você me viu. Meu coração quis sair do peito, mas eu respirei fundo e sorri (lembram? sou boa nisso). Disfarcei. Você disfarçou. Mas foram os dois disfarces mais inúteis que já vi. As nuvens riram de tamanha meninice nossa.
E meu narrador narra você andando, você se controlando depois de me ver de longe e vindo em minha direção. Narra sua racionalidade, seu subconsciente, seu corpo feito pra minhas mãos acariciarem,...Ahhh você! Você é o cara que, pela primeira vez, me deu certezas inexplicáveis, meu deu lágrimas também, mas sei que não foi por maldade. Você não é mau. Você é aquele que me faz rir, que cuida de cada detalhe, que canta doçuras, que me fez uma música, que tem o cachorro mais fofo do universo e os pais mais agradáveis.
Tentando dar fim a tanta narração te dei um abraço, você me fez perguntas, eu respondi e você refez as mesmas perguntas. Acho que você também tem um narrador pois não conseguiu ouvir nada do que eu disse. Eu sei, você está se concentrando pra não SE trair, pra negar o sentimento. Por que isso, meu amor, por que? Pra que essa insegurança toda em se entregar? Pra que esse autocontrole? Mas essa confusão e meninice sua me fazem gostar ainda mais de você. E segurando o riso, eu repito mais pausadamente a resposta. Você finge que entende pra não ter que perguntar de novo, pois eu sei que você não conseguiu acompanhar minha explicação. Sua cabeça estava em outro lugar, estava tentando explicar o que estava sentindo, estava tentando negar os pulos de seu coração.
Olhando dentro de mim me pergunta "por que você me olha assim, Bebê?". Assim como? diz meu narrador. Assim como?, eu repito. "Assim, me amando, me entendendo, sendo que nem mesmo eu me entendo." Hum...deve ser porque te amo e te entendo mesmo você não se entendendo. "COMO?", você se questiona e me questiona. É simples, não olho apenas com os olhos e nem tento entender com a razão apenas. Olho com o coração e busco entender na alma.
Nessa hora meu narrador se calou e ficou esperando a trilha sonora. Já era noite. As estrelas cantaram seu nome em coro, como tinha que ser. O vento nos enlaçou. Eu te abracei, como tinha que ser. E você me deu um beijo no canto da boca, mudando o desfecho atual da história, como NÃO tinha que ser.

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