Dupla Delícia.

Dupla Delícia.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

A Loja de Brinquedos



Era uma pequena loja numa pequena cidade com habitantes de pequena mentalidade e coração.
Como toda loja de brinquedos era muito visitada, especialmente por crianças, o que fazia com que ela se parecesse maior do que era na realidade.
Pra quem não sabe, já vou contar um segredo das lojas de brinquedos: quase todas são ENCANTADAS. (Acho que é resultado da união de tanta magia, fé, inocência...essas coisas.)

Apesar de estar numa pequena cidade o giro de mercadorias era intenso. Toda semana todo estoque era praticamente renovado. Mas havia UM brinquedo que estava ali na estante há muito, muito tempo.
Era uma linda caixa de música, sabe...dessas mais antigas. Não estava velha. Nem um pouco.
Era apenas uma reinvenção daquelas caixinhas de música que tanto enfeitaram casas e alegraram corações.
Os demais brinquedos eram muito legais também, mas semanas depois eram substituídos por outros novos que chegavam, ainda mais modernos, mais eletrônicos, mais auto-suficientes.
Esses brinquedos atuais praticamente brincam sozinhos. Falam, andam, cantam...desconfio que até comem. Tudo muito moderno, eletrônico e prático.
"Não dá pra competir com esses brinquedos", pensava solitária a caixinha de música.
Ela cantava uma melodia incrível mas precisava que alguém "desse corda". Ela não era auto-suficiente como os demais.
Os demais brinquedos aletarvam-na dizendo: "Você precisa se 'modernizar'! Precisa atualizar seu modo de ser e pensar senão nunca sairá da prateleira!".

Eles não falavam isso por maldade, é o que eles realmente pensavam e acreditavam. Apesar de eles saírem de lá e dias depois serem trocados por outros mais e mais modernos.
"O povo é insatisfeito e consumidor. Eles nunca vão dar grande valor à brinquedos porque apenas os usam, não criam laços, não se apegam. Apenas se divertem e até gostam dos brinquedos, mas se chegar algo aparentemente melhor...o outro vai pra 'caixa de doações' ou para o lixo mesmo.
Antigamente, as meninas brincavam muito de boneca e sempre tinham uma em especial. Podia até chegar outras mais "modernas", mas a graça estava em refazer, re-utililizar a antiga. Assim ela nunca perdia o valor."
_ falou Melissa, a dona da loja, numa reunião com os brinquedos.
Ela queria alertá-los para que não entrassem no comportamento fugaz e não se sentissem superiores aos demais por serem mais modernos. E nem os antigos se sentissem mal por estarem lá "estocados".

"O mercado é injusto.
Talvez se nós baixássemos o preço acharíamos algum comprador...",
disse a Caixinha de Música, que era representante dos 'brinquedos não mais fabricados atualmente'.

"Nãooo, nãooo. De maneira alguma!
Sei que não é nada fácil ver alguns brinquedos (até sem graça de tão modernos)saírem e acharem donos logo que chegam aqui na loja. Mas, chegará o momento que alguém de visão, alguém que dê valor às coisas permanentes também te levará."
_ isso, Melissa falou em particular, é claro.

"Ah! Mas deve ser uma pessoa chata, velha e que vive de passado e vai me deixar lá para enfeitar a casa!", retrucou a Caixinha.

"Nãoo. Claro que não! Muito pelo contrário.
Pode ser uma pessoa incrível, de coração sem igual e visão limpa, que não se deslumbrou com as coisas fugazes.
Ou... se deslumbrou mas viu que era sem sentido. Se for assim é ainda melhor porque
não deve cair no mesmo erro duas vezes e você não corre o risco de ser desvalorizada"
. _Melissa, era jovem mas sábia.

As palavras eram até belas, esperançosas mas a realidade não parecia bem assim.
Passaram-se dias, meses...As mercadorias eram trocadas. Umas até riam da cara e da situação dos que estavam ali há um tempo.
Não era nada fácil crêr contra a esperança.

Ao mesmo tempo, do outro lado do rio, numa outra cidade...Vitório ouviu dizer das coisas que existiam naquela 'Loja de Brinquedos' e tratou de arrumar suas malas o mais rápido possível com medo de perder seu tão sonhado brinquedo.

Ele levou 3 dias para chegar até a cidade e foi direto para a Loja.
Ao ver a Caixa de Música seus olhos se encheram (de lágrima, encanto e alívio).
"Há anos que procuro um brinquedo como esse!!! Tá difícil achar! Os atuais que tentam imitá-lo são feitos de material praticamente descartável!". E continuou: "Eu pago 500 moedas grandes!"

Melissa riu e disse: " Mas, senhor, eu cobro apenas 200. Pode levar pelo preço que está aqui há anos!"

"Como? Não! Eu sou dono de um antiquário e sei bem quanto vale uma peça dessa!
Claro que vou levar, mas pelo preço justo. Pelo preço que realmente vale."
_ressaltou Vitório.

Melissa surpreendeu-se por ter achado tão bom comprador pra Caixa mas mesmo assim preferiu fazer uma observação.

"Senhor, eu a tenho há muitos anos e sempre esperei encontrar um bom dono pra ela e não apenas um comprador. Como dono de antiquário, temo que o senhor a venda para alguém que a deixará apenas como enfeite e..."


Vitório interrompeu-a, não por falta de educação mas por estar excitado por ter finalmente encontrado sua "preciosidade" e já queria garanti-la.
"Não se preocupe, cara amiga. Essa jóia jamais será vendida! Eu a procurava para mim mesmo, para fazer-me companhia e ouví-la cantar todos os dias.
Pode embrulhar. Mas ó...muito cuidado! Embale da melhor forma possível! Não quero que quebre, arranhe ou sofra qualquer coisa no caminho."









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